Cadernos de geopoética





Um dos arcos insulares do Pacífico vai de Halmaheira, ao sul das Filipinas, até o Kamtchatka, passando pelos Pescadores, Taiwan, Okinawa, os Ryukyu e o Hokkaido. Vulcânicas, essas ilhas fazem parte do que se denominou o antigo «cinturão de fogo» do Pacífico. É o itinerário aproximativo que percorreu Lapérouse quando deixou Manila em abril de 1787 a caminho da costa de Tartaria e das obscuras regiões do noroeste do Pacífico. Foi um episódio importante de sua expedição - expedição que leio como uma viagem mental -, não apenas por causa da confusão cartográfica que reinava nessa parte do mundo, mas também porque era a única região que tinha «escapado à energia incansável do Capitão Cook». O que Lapérouse queria não era apenas fazer um mapa, mas deixar a sua marca.

Leia mais:Leitura de Lapérouse

É a uma espécie de deriva intercontinental e intelectual que eu os convido, na qual iremos discutir geopoética e cultura e, ao longo da qual, abordaremos, espero, algumas ilhas interessantes, a fim de delinear os contornos, não de um novo “Novo Mundo”, mas talvez de um novo texto - eventualmente, contexto - mundial.


1.  A CRISE CULTURAL

Comecemos por certa consciência histórica e pelo sentido geral de uma crise da cultura que todo mundo experimenta em diversos graus, segundo tonalidades diferentes.

Lembraremos, em um primeiro momento, das duas cartas sobre A Crise do espírito, escritas por Paul Valéry, que apareceram, em inglês, em 1919 – antes de terem aparecido em francês cinco anos depois:

« Nós, civilizações outras, sabemos agora que nós somos mortais ... Nós ouvimos falar sobre mundos completamente desaparecidos, de impérios naufragados com todos seus homens e todas as suas engenharias, rebaixados ao fundo inexplorável dos séculos com seus deuses et suas leis, suas academias e suas ciências puras e aplicadas, com suas gramáticas, seus dicionários, seus clássicos, seus românticos e seus simbolistas, seus críticos e os críticos de seus críticos ... Mas, esses náufragos, depois de tudo, não eram assunto nosso. Elam, Ninive, Babilônia eram belos nomes vagos e a ruína total desses mundos tinha tão pouco significado para nós que a sua própria existência. Mas, França, Inglaterra, Rússia ... seriam também belos nomes. E, agora, nós vemos que o abismo da história é suficientemente grande para todos. »

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É paradoxal falar em geopoética em relação a Pessoa, que tem a reputação justificada por ser um poeta do «espaco de dentro». Ele mesmo reconhece que «vive constantemente no abstrato». Na «tragédia subjetiva», em cinco atos e em versos, em que ele retoma o mito de Fausto — e que foi talvez a grande obra de sua vida, permanecida inacabada —, ele faz seu herói falar no Monológo nas trevas do Vo ato:

Sou mais real que o mundo.

Por isso odeio-lhe a existência enorme,

O seu amontoar de coisas vistas.

Como um santo devoto

Odeio o mundo, porque o que eu sou

E que não sei sentir que sou, conhece-o.

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Em 1° de abril de 1801, vindo da ilha de Cuba, Alexandre de Humboldt se encontrava em Cartagena das Índias, na costa da Nova Granada (a Colômbia atual). Então, ele escreve a seu irmão Guilherme:

«Se você recebeu a minha última carta de Havana, você deve saber que eu modifiquei meu plano inicial e que, em vez de ir à América do Norte, ao México, eu retornei à costa meridional do Golfo do México para viajar de lá para Quito e Lima. Demoraria muito explicar a você todas as razões...»

No momento em que ele escrevia essa carta, Humboldt já estava bastante engajado em sua imensa «viagem às regiões equinociais do Novo Continente», que tinha iniciado no dia 5 de junho de 1799 e ia prosseguir até o dia 3 de agosto de 1804.

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