Régis POULET

Presidente do Instituto Internacional de Geopoética

 

Kenneth White é uma das poucas pessoas que mudaram o curso da minha vida.

A confiança e a amizade que ele me concedeu desde o nosso primeiro encontro, e que só cresceram até seus últimos momentos, permitem-me lutar há três anos para fazer respeitar as suas vontades, sejam elas estritamente testamentárias ou intelectuais, contra todos os desvios e todas as traições.

O "Caso Gwenved" - do nome da casa que Kenneth White queria transformar em residência de artistas e escritores - cristaliza muitos elementos sobre os quais não terei hoje a oportunidade de me alongar. Digamos que se trata do respeito a um pensamento exigente, a geopoética, e ao seu inventor.

Esta exigência, eu a aplico para mim mesmo e muitas vezes também para os outros desde 2013. Não tenho intenção de mudar.

O Instituto Internacional de Geopoética, que existe desde 1989, carrega em si as sementes de uma poderosa transformação do mundo. O que aprendemos de Kenneth White e da geopoética é que em qualquer lugar se joga nossa relação com o mundo e nossa relação com os outros. A salvaguarda da casa dos White é mais do que um gesto de salvaguarda de um património, é um gesto para salvar um lugar vivo de cultura, para que possa ainda servir de lar de cultura.

Diante do risco declarado de venda de Gwenved, tomei a iniciativa, após discussão no seio da nossa instituição, de lançar uma petição para impedir a venda e fazer com que o projeto de Casa de artistas e escritores, em vias de ser enterrado sob as flores artificiais e as cerimónias, viesse a acontecer. A linha defendida é simples: respeitar escrupulosamente as vontades claramente expressas por Kenneth White. Amplamente ouvida na França e no exterior (em cerca de cinquenta países), ela suscita resistências entre aqueles que, com o falecido Kenneth White, parecem ter outros interesses além da defesa póstuma dos seus.
Leia mais:Respostas a acusações difamatórias sobre o caso Gwenved

Quero antes de tudo de agradecer aos organizadores deste colóquio dedicado à geopóetica, o segundo ao qual tenho a honra de ser convidado, a saber, a professora Luiza PONZIANO, o professor Georgios DIMITRIADIS e a professora Lirandina GOMES, assim como suas respectivas instituições em Portugal e no Brasil — também agradeço a Lucila MOREIRA pela tradução.

Este colóquio é uma oportunidade para me de cumprimentar a vitalidade dos grupos geopóeticos formais ou informais de língua portuguesa que nomearam, muito apropriadamente, seus encontros ‘transatlânticos’ e para saudar todos os participantes.

Como vocês provavelmente sabem, Kenneth White faleceu há quase um ano. Embora nunca tenha vindo ao Brasil, ele esteve em Portugal várias vezes, sendo a última em 2019, em Lisboa, para o colóquio "As linhas da terra: percursos geofilosóficos e geopóeticos no Antropoceno", do qual ele foi o convidado de honra.

Leia mais:A geopoética: uma presença completa no mundo

Por volta de 1954, na Universidade de Glasgow, eu lia Estudo da História de Arnold Toynbee. Estava particularmente interessado no volume 9, que tinha acabado de ser publicado e continha a décima segunda e última parte da imensa obra: As Perspetivas da Civilização Ocidental.

Ao longo de seu estudo, Toynbee analisou cerca de vinte civilizações conhecidas pela humanidade desde os primórdios. Nesta última parte, concentrava-se na etapa final da civilização ocidental que denominava sua fase “pós-moderna” (acredito que tenha sido o primeiro a usar esse termo), a qual, segundo ele, tinha começado em 1919, ou seja, no final de uma guerra que ficou conhecida como “a guerra para acabar com todas as guerras”. Contudo, em 1954, já podíamos chamá-la simplesmente de Primeira Guerra Mundial, considerando que, depois dela, vieram a segunda e até uma potencial terceira.

Leia mais:Análise espectral do mundo atual


O Instituto Internacional de Geopoética existe, continuamente, há trinta e cinco anos, o que significa que a sua fundação repousa sobre bases sólidas, constatadas ao longo do tempo.

Kenneth White, seu fundador e presidente até 2013, morreu em agosto de 2023 não sem antes ter preparado devidamente o futuro.

Mas retomemos, por ora e, limitando-se ao essencial, ao movimento geopoético.

Fundado no dia do aniversário de Kenneth White, dia 28 de abril de 1989, o Instituto Internacional de Geopoética viu afluir rapidamente pessoas apresentando novas perspectivas existenciais e intelectuais - frescor inédito. É a época do aparecimento dos Cadernos de Geopoética, no qual White agrupa contribuições transdisciplinares, abrangendo o campo que a sua obra abria à confluência da arte, da ciência e da filosofia. É a época em que surge o ensaio O Platô do Albatroz (1994), Introdução à geopoética à qual nunca deixaram de invocar aquelas e aqueles que queriam compreender as bases dessa teoria-prática. É, de igual modo, a época, sob o plano organizacional, em que White propõe uma “arquipelização” do Instituto (1993) para favorecer a criação de grupos de pesquisa aqui e lá na França, na Europa e no mundo. Iniciativa coroada com sucesso, já que dezenas de centros emergiram rapidamente.

Leia mais:Iluminar o horizonte
Pagina 1 de 2